O Paradoxo da liberdade

“Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres”. (João 8:36)

O dia 07 de setembro marca no calendário brasileiro uma das datas mais importantes da história de nosso país: o fim do domínio português e a conquista da autonomia política. A Independência do Brasil constitui-se como o ápice de um longo processo histórico, marcado por transformações políticas, econômicas e sociais, além de lutas, enfrentamentos e morte. Uma vez conquistada a tão sonhada independência, um paradoxo se coloca: “O que fazemos agora com essa tal liberdade?”

Quase 200 anos depois do grito do Ipiranga, essa pergunta ainda é perturbadora. O que foi que, como nação, fizemos com nossa liberdade? Por que a liberdade não implicou em uma total ruptura com as marcas mais nocivas do Brasil colônia, tais como: a injustiça, a exploração, a corrupção, o racismo, a violência, dentre outras? Por que a liberdade não operou ou não contribuiu de forma lógica na construção de cenários opostos aos vividos na ausência da liberdade?

A resposta a esse questionamento é bastante complexa, se é que existe… Mas, o que acontece com o Brasil pode constituir-se como uma boa metáfora para pensar a nossa vida também sob a ótica da espiritualidade. Afinal, a Bíblia nos afirma que Jesus nos chamou para a liberdade e que, com Ele, somos, de fato, livres.

Na nossa leitura, a fala de Jesus buscava fazer um contraponto entre a vida regida sob a égide da lei de Moisés e a vida regida pelo evangelho. Para um judeu do primeiro século, a observância estrita da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia) era o que garantia a salvação e as dádivas de Deus aos homens. Assim, a lei operava numa lógica de tolhimento das liberdades, uma vez que não havia outra escolha para ser “aceito por Deus” a não ser observá-las rigorosamente.

Cristo declara uma lógica oposta: por meio d’Ele, podemos viver, não mais pela observância da lei, mas pela Sua graça. A salvação é um presente. Em outras palavras, enquanto a lei deixa o homem entregue às suas próprias forças e o obriga a empregá-las ao máximo, o evangelho coloca o homem diante de um dom gratuito de Deus e lhe pede que faça desse presente o fundamento da sua vida.

Jesus nos garante a liberdade: nada mais devemos. Ele pagou o preço. Não precisamos mais usar a nossa justiça própria para alcançarmos a salvação. Liberdade!!! Mas, o que fazemos com essa tal liberdade? Por que, uma vez entendendo a liberdade que temos em Cristo, muitas vezes não vemos essa liberdade convergir numa vida mais amorosa, mais humana, mais leve, mais perdoadora, menos ansiosa, menos violenta? Talvez porque a liberdade seja um grande paradoxo…

E, talvez, por isso, muita gente prefira permanecer sem liberdade: criando e exigindo regras rígidas, posturas deterministas e imposições autoritárias. Talvez, por isso, ainda haja quem prefira o púlpito ameaçador, a mensagem assustadora do inferno, a disciplina pública e vexatória… Talvez, por isso, ainda haja quem queira o retorno de uma ditadura militar…

Ah, essa tal liberdade… tão encantadora e tão assustadora… Que Deus nos ensine a viver por ela, com ela e para ela… Que Deus nos ensine a promovê-la, mesmo sem entendê-la por completo… Que Deus nos ensine a sermos verdadeiramente livres!

 

Pr. Heleénder e Anna Eliza

 

 

 

Faça a sua Reserva